cadáver,

Meu eu cadáver...

14:20 Equipe Das Letras 0 Comments


Aqui em Laval, QC, tem feito muito frio, tenho chegado a esquecer-me de como é sentir o corpo quente. Esse na verdade não é o maior dos meus problemas, na realidade é o menor deles. Que é o frio que congela o corpo se comparado ao que congela o coração?
Em alguns momentos a vida aplica-nos algumas surras, que se não mortificam por completo, fazem com que o afamado e poetizado objeto do amor, vire tal qual um rocha, onde nada cresce e qualquer chuva por ali apenas cai e escorre. Não é um texto de lamuria é apenas uma constatação.
Quando estamos com o coração pulsando, batendo, bombeando sangue, vida, euforia, paixão, somos seres dotados de uma capacidade essencial a vida em sociedade, a saber a capacidade de tolerar. Os mortos não toleram, não suportam, não relevam, eles apenas odeiam, tudo, absolutamente tudo que é medíocre, ignorante e trivial.
Meu coração não apenas deixou de bater mas tornou-me cadáver. Não como os reais que são levados ao salão mortuário e velados por longas horas, mas uma espécie de cadáver diferente, insuportável, que mais do que tudo pede, clama, implora por solidão, ou pela companhia tão cheia de requisitos que já não é capaz de existir em vida. Minha nossa, que horror!
O que resta aos pobres defuntos que não tem mais a capacidade de suportar? Aos que morrem a cada encontro com a vida, onde pessoas falam de tudo e de todos, mas a suas falas sente-se apenas o aroma fétido do esgoto. Mate-me, por favor!
Pobre cadáver sou, nem mesmo consigo escrever algum exemplo a mais do que me refiro. Leve-me a terra onde jaz o silêncio. Permita que escorra por meus olhos a lágrima, por mim mesmo, por meus ouvidos tão vitimados enquanto vivo, por meus olhos estuprados...
Calo-me. Recolho-me a insignificância do silencio e da morte. Nunca mais ouvirei o som da hipocrisia e da mediocridade. Felicidade para mim: A morte e o morrer. 

Patrick René
Laval, QC, Canadá
The Reflector


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