cadáver,
Aqui em Laval,
QC, tem feito muito frio, tenho chegado a esquecer-me de como é sentir o corpo
quente. Esse na verdade não é o maior dos meus problemas, na realidade é o
menor deles. Que é o frio que congela o corpo se comparado ao que congela o
coração?
Meu eu cadáver...
Em alguns
momentos a vida aplica-nos algumas surras, que se não mortificam por completo,
fazem com que o afamado e poetizado objeto do amor, vire tal qual um rocha,
onde nada cresce e qualquer chuva por ali apenas cai e escorre. Não é um texto
de lamuria é apenas uma constatação.
Quando
estamos com o coração pulsando, batendo, bombeando sangue, vida, euforia,
paixão, somos seres dotados de uma capacidade essencial a vida em sociedade, a
saber a capacidade de tolerar. Os mortos não toleram, não suportam, não relevam,
eles apenas odeiam, tudo, absolutamente tudo que é medíocre, ignorante e
trivial.
Meu coração
não apenas deixou de bater mas tornou-me cadáver. Não como os reais que são
levados ao salão mortuário e velados por longas horas, mas uma espécie de cadáver
diferente, insuportável, que mais do que tudo pede, clama, implora por solidão,
ou pela companhia tão cheia de requisitos que já não é capaz de existir em
vida. Minha nossa, que horror!
O que resta
aos pobres defuntos que não tem mais a capacidade de suportar? Aos que morrem a
cada encontro com a vida, onde pessoas falam de tudo e de todos, mas a suas
falas sente-se apenas o aroma fétido do esgoto. Mate-me, por favor!
Pobre cadáver
sou, nem mesmo consigo escrever algum exemplo a mais do que me refiro. Leve-me
a terra onde jaz o silêncio. Permita que escorra por meus olhos a lágrima, por
mim mesmo, por meus ouvidos tão vitimados enquanto vivo, por meus olhos
estuprados...
Calo-me.
Recolho-me a insignificância do silencio e da morte. Nunca mais ouvirei o som
da hipocrisia e da mediocridade. Felicidade para mim: A morte e o morrer.
Patrick René
Laval, QC, Canadá
The Reflector


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