amizade,
Jean Cássio Lima: Fui submetido à “Cura Gay”
Hoje eu recebo um querido amigo para o #BEDA2015 #BlogMonth, Jean Cássio Lima, mineiro, geógrafo, e com uma linda história, que vale a pena conferir! Então pega seu Café Bom Jesus e se emocione com o texto, a final, pensar não dói!
De muito bom grado aceito o convite de meu amigo
Patrick a compartilhar com vocês minha experiência acerca de como assumi minha
homossexualidade e como lidei com minha religiosidade a partir de então. Essa
história se passa com um jovem de Belo Horizonte que frequentava uma
congregação Batista, mas pode acontecer com qualquer pessoa independente de
origem e credo.
Frequentei a vertente Batista desde o final da
infância até os meus 17 anos (idade com a qual ingressei no ensino superior).
Vivi durante esse período uma vida inteiramente norteada pelos dogmas da igreja
e desta forma, o fato de ser homossexual sempre me atormentou por achar que
seria condenado por Deus em virtude de meus desejos sentimentais e sexuais.
Eu percebo minha "identidade sexual" em
três grandes etapas: a primeira foi até a faixa dos 14 anos de idade, na qual
sempre me senti atraído por meninos, mas pensava que fosse algo que passaria
quando chegasse à idade adulta. A segunda foi entre 14 e 17 anos, na qual minha
“fixa caiu” e busquei intensamente uma "libertação" de minha
homossexualidade. A terceira foi a partir dos 17 anos quando, já em contato com
os estudos acadêmicos sobre sociedade, papel e status e
instituições sociais, aceitei minha sexualidade como algo natural e inerente a
mim e então saí do armário (sem retorno).
Foi nessa segunda etapa da minha vida que tive
contato com a "cura gay". Queria muito ser heterossexual. Não que o
fato de ser gay em si cause transtorno e tristeza a homossexuais, é o medo da
sociedade não nos aceitar como somos que nos faz negar nossa essência. Quando o
processo de aceitação acontece tudo muda, e nossa "identidade sexual"
passa a ser motivo de orgulho e não de vergonha.
Por causa dessa sensação de estar errado e precisar
me "libertar" fui em busca de ajuda. Num primeiro momento, tentei por
mim mesmo. Li vários relatos de ex-LGBT que haviam se convertido ao
neopentecostalismo, orei, fiz jejuns, fiz votos de abstinência, subi ao monte
(essa é uma prática comum entre evangélicos), enfim... fiz tudo o que o
protocolo manda para alcançar a "cura gay".
Segundo a crença Batista, quando você entrega sua
vida para Jesus, todos os seus vínculos com entidades demoníacas (a essas
entidade acresce-se o que chamam de "espírito do homossexualismo")
são desfeitos com base na passagem do livro de João, capítulo 8, versículo 32: "E conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará". Só que uma dúvida sempre paira no ar: se no ato da
conversão o crente é liberto, por que continua a homossexualidade? Para
responder essa pergunta usam como base um versículo do livro de Mateus,
capítulo 17, versículo 21: "Mas
algumas castas só saem com jejum e oração". Pronto! Agora é fácil
resolver! "Se você possui o espírito do homossexualismo, depois de
entregar sua vida a Jesus, deve fazer vigílias de oração e jejuar muito, além
de ter muita fé. Se você não for liberto é porque você não está fazendo jejuns
e orações ou não tem fé o suficiente." Este foi o discurso que ouvi
durante toda minha adolescência. Era de se esperar que por isso eu me culpasse
tanto por ainda ser gay, ainda que, até então, sequer tivesse beijado um homem.
Orava a Deus pedindo fé para que me "curasse" constantemente. Para
mim, a resposta para o meu problema estava em Mateus 17; 21: ”se ainda continuo
gay, aumento a dose de orações e jejuns”. Era apenas um garoto de 15 anos,
terminando meu Ensino Fundamental, quando fiz campanhas acordando de madrugada
para orar e fazendo jejuns diários de dezessete horas. Sim! Estudava no turno da
tarde e ficava sem comer de meia noite às 17h durante o período de alguns meses
a ponto de emagrecer muito. Minha mãe e professores sequer sabiam disso (com
certeza me impediriam e quereriam uma resposta que justificasse esses jejuns,
resposta que eu não estava disposto a dar). Pode parecer completa loucura que
um adolescente de 15 anos se submeta a isso, mas minha crença de que esse
método me tornaria heterossexual me motivava a continuar.
Passou-se o tempo e, por volta dos 16 anos percebi
que meus esforços não estavam funcionando e à medida que ia envelhecendo meus
hormônios me instigavam mais. Nesse momento senti a necessidade de procurar
ajuda externa. A resposta para minha angústia naquele estágio da vida
estava em Tiago 5;16 que diz: "confessem
os seus pecados uns aos outros para serem curados". Pensei
minunciosamente a quem contaria pela primeira vez esse segredo que sempre
mantive comigo e duas pessoas influentes em minha igreja, que trabalham
essencialmente com causas que chamam de "libertação interior" foram
escolhidas. Um homem e uma mulher. Contei tudo a eles ao passo que ficavam
impressionados com minhas declarações uma vez que eu também já era uma pessoa
com cargos e conhecida dentro da congregação. Confesso que naquele momento
senti um alívio enorme por não mais guardar esse segredo. Mais do que nunca
pensei que a "cura gay" estava próxima. Fizemos orações, traçamos
objetivos e pouco depois de completar 17 anos, comecei a namorar uma menina da
escola. Meu relacionamento de três meses com ela me fez perceber que todo meu
esforço, desde os 14 anos de idade, de nada valeram. Eu fiquei muito angustiado
sem saber mais que armas usar para lutar. Terminei o namoro em Janeiro de 2010
e comecei a cursar Geografia no mês seguinte. A universidade teve então um
papel decisivo ao me mostrar outra possibilidade: a aceitação. Ainda no
primeiro período saí do armário e desde então ser homossexual não é motivo de
vergonha ou tristeza pra mim. Nunca me senti tão bem comigo mesmo em toda a
minha vida.
Desde então não frequento mais o templo que
frequentava. Não que seja impossível ser gay e religioso ao mesmo tempo, pelo
contrário. Mas percebi que minha relação com o sagrado é mais viva no meu
cotidiano, através de minhas atitudes e na fé que tenho no cuidado divino sobre
mim, que vai muito além dos dogmas e das instituições religiosas. É uma
experiência de crente com o divino que me aceita como sou, independente dos
templos que tentam intermediar minha fé dizendo que devo ser quem não sou.
contato@patrickrene.com.br


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