amizade,

Jean Cássio Lima: Fui submetido à “Cura Gay”

12:42 Equipe Das Letras 0 Comments


Hoje eu recebo um querido amigo para o #BEDA2015 #BlogMonth, Jean Cássio Lima, mineiro, geógrafo, e com uma linda história, que vale a pena conferir! Então pega seu Café Bom Jesus e se emocione com o texto, a final, pensar não dói! 
De muito bom grado aceito o convite de meu amigo Patrick a compartilhar com vocês minha experiência acerca de como assumi minha homossexualidade e como lidei com minha religiosidade a partir de então. Essa história se passa com um jovem de Belo Horizonte que frequentava uma congregação Batista, mas pode acontecer com qualquer pessoa independente de origem e credo.

Frequentei a vertente Batista desde o final da infância até os meus 17 anos (idade com a qual ingressei no ensino superior). Vivi durante esse período uma vida inteiramente norteada pelos dogmas da igreja e desta forma, o fato de ser homossexual sempre me atormentou por achar que seria condenado por Deus em virtude de meus desejos sentimentais e sexuais.

Eu percebo minha "identidade sexual" em três grandes etapas: a primeira foi até a faixa dos 14 anos de idade, na qual sempre me senti atraído por meninos, mas pensava que fosse algo que passaria quando chegasse à idade adulta. A segunda foi entre 14 e 17 anos, na qual minha “fixa caiu” e busquei intensamente uma "libertação" de minha homossexualidade. A terceira foi a partir dos 17 anos quando, já em contato com os estudos acadêmicos sobre sociedade, papel e status e instituições sociais, aceitei minha sexualidade como algo natural e inerente a mim e então saí do armário (sem retorno).

Foi nessa segunda etapa da minha vida que tive contato com a "cura gay". Queria muito ser heterossexual. Não que o fato de ser gay em si cause transtorno e tristeza a homossexuais, é o medo da sociedade não nos aceitar como somos que nos faz negar nossa essência. Quando o processo de aceitação acontece tudo muda, e nossa "identidade sexual" passa a ser motivo de orgulho e não de vergonha.

Por causa dessa sensação de estar errado e precisar me "libertar" fui em busca de ajuda. Num primeiro momento, tentei por mim mesmo. Li vários relatos de ex-LGBT que haviam se convertido ao neopentecostalismo, orei, fiz jejuns, fiz votos de abstinência, subi ao monte (essa é uma prática comum entre evangélicos), enfim... fiz tudo o que o protocolo manda para alcançar a "cura gay".

Segundo a crença Batista, quando você entrega sua vida para Jesus, todos os seus vínculos com entidades demoníacas (a essas entidade acresce-se o que chamam de "espírito do homossexualismo") são desfeitos com base na passagem do livro de João, capítulo 8, versículo 32: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Só que uma dúvida sempre paira no ar: se no ato da conversão o crente é liberto, por que continua a homossexualidade? Para responder essa pergunta usam como base um versículo do livro de Mateus, capítulo 17, versículo 21: "Mas algumas castas só saem com jejum e oração". Pronto! Agora é fácil resolver! "Se você possui o espírito do homossexualismo, depois de entregar sua vida a Jesus, deve fazer vigílias de oração e jejuar muito, além de ter muita fé. Se você não for liberto é porque você não está fazendo jejuns e orações ou não tem fé o suficiente." Este foi o discurso que ouvi durante toda minha adolescência. Era de se esperar que por isso eu me culpasse tanto por ainda ser gay, ainda que, até então, sequer tivesse beijado um homem. Orava a Deus pedindo fé para que me "curasse" constantemente. Para mim, a resposta para o meu problema estava em Mateus 17; 21: ”se ainda continuo gay, aumento a dose de orações e jejuns”. Era apenas um garoto de 15 anos, terminando meu Ensino Fundamental, quando fiz campanhas acordando de madrugada para orar e fazendo jejuns diários de dezessete horas. Sim! Estudava no turno da tarde e ficava sem comer de meia noite às 17h durante o período de alguns meses a ponto de emagrecer muito. Minha mãe e professores sequer sabiam disso (com certeza me impediriam e quereriam uma resposta que justificasse esses jejuns, resposta que eu não estava disposto a dar). Pode parecer completa loucura que um adolescente de 15 anos se submeta a isso, mas minha crença de que esse método me tornaria heterossexual me motivava a continuar.

Passou-se o tempo e, por volta dos 16 anos percebi que meus esforços não estavam funcionando e à medida que ia envelhecendo meus hormônios me instigavam mais. Nesse momento senti a necessidade de procurar ajuda externa.  A resposta para minha angústia naquele estágio da vida estava em Tiago 5;16 que diz: "confessem os seus pecados uns aos outros para serem curados". Pensei minunciosamente a quem contaria pela primeira vez esse segredo que sempre mantive comigo e duas pessoas influentes em minha igreja, que trabalham essencialmente com causas que chamam de "libertação interior" foram escolhidas. Um homem e uma mulher. Contei tudo a eles ao passo que ficavam impressionados com minhas declarações uma vez que eu também já era uma pessoa com cargos e conhecida dentro da congregação. Confesso que naquele momento senti um alívio enorme por não mais guardar esse segredo. Mais do que nunca pensei que a "cura gay" estava próxima. Fizemos orações, traçamos objetivos e pouco depois de completar 17 anos, comecei a namorar uma menina da escola. Meu relacionamento de três meses com ela me fez perceber que todo meu esforço, desde os 14 anos de idade, de nada valeram. Eu fiquei muito angustiado sem saber mais que armas usar para lutar. Terminei o namoro em Janeiro de 2010 e comecei a cursar Geografia no mês seguinte. A universidade teve então um papel decisivo ao me mostrar outra possibilidade: a aceitação. Ainda no primeiro período saí do armário e desde então ser homossexual não é motivo de vergonha ou tristeza pra mim. Nunca me senti tão bem comigo mesmo em toda a minha vida.

Desde então não frequento mais o templo que frequentava. Não que seja impossível ser gay e religioso ao mesmo tempo, pelo contrário. Mas percebi que minha relação com o sagrado é mais viva no meu cotidiano, através de minhas atitudes e na fé que tenho no cuidado divino sobre mim, que vai muito além dos dogmas e das instituições religiosas. É uma experiência de crente com o divino que me aceita como sou, independente dos templos que tentam intermediar minha fé dizendo que devo ser quem não sou.

contato@patrickrene.com.br 

You Might Also Like

0 comentários: