Amor,
Diários de Johannes - O ato carnal. - Por Bruno Rosário
Essa é mais uma das cartas que tenho recebido
de Johannes, talvez das que já recebi, a mais reveladora, a mais profunda pois
relata o ápice da vida de um homem, a saber, quando este tem um enlace carnal e
ao mesmo tempo espiritual com uma mulher.
Outra coisa precisa ficar clara antes da leitura
do texto: Não estou manchando a imagem nem de Johannes, nem de Jeovanna com a
publicação deste escrito. Não mancho a de Johannes, pois como amante dos
sentimentos que foi, sejam bons ou maus, ele recusaria guardar por tanto tempo
os lindos parágrafos escritos por alguém tomado por desejos, sentimentos que
constituem um ser dito humano. Em relação à Jeovanna nada posso dizer, a não
ser o fato de que ela não sabe das publicações dessas cartas, portanto, que não
revelaremos nada nelas que comprometam seu convívio social. De qualquer modo,
se necessário for, tomemos Jeovanna como um personagem fictício que nunca
existiu em toda a história da humanidade, coisa que para Johannes parece quase
verdade. Ele, como expressou tantas vezes em suas cartas, custava acreditar que
poderia existir alguém como sua amada... ou pelo menos como ele a imaginava.
Vamos à carta:
23 de Abril de 2013
Sou muitíssimo desgraçado, Haimrich!
Sou um podre, um sujo, um pervertido! Jurei a
mim mesmo que jamais profanaria a imagem de alguma criatura celestial, qualquer
que fosse, até mesmo a de um anjo que perdeu as asas, fora transformado em
humano e reside no plano terrestre. Mas agora, não rias de mim, rapaz...
Contar-te-ei meu sonho.
Mas antes quero que saiba que só estou
fazendo porque admiti que em mim reside um homem com seus vinte anos que tem
como hobbie aventurar-se na cama de
lindas donzelas. O problema é que meu Don Juan é um homem vil de extinto
animalesco, um monstro. E se ele não tiver a vigília de minha consciência
moral, acabará por engravidando a primeira moça que ver pela frente. Devo
acrescentar que durante meus sonhos perco de vista o bandido, fazendo assim meu
eu transformar-se em um selvagem. E o pior, Haimrich, é que a vítima dessa
noite foi alguém que me é tão cara que me veem lágrimas aos olhos ao lembrar
das brincadeiras pervertidas de meu subconsciente.
Mas a essa altura tu deve estar se
perguntando por que ínsisto em abrir a caixa de pandora de minha memória e
invocar lembranças que me causam muito pesar. A resposta, amigo (se é que
alguém como eu é digno de possuir algum), é que gostei. Sim, gostei. Quem
poderá me julgar? Aposto que você teria gostado também. Não só você, mas todo
homem que possui total consciência de que: a) não controla as aventuras
oníricas, e, b) esteve, mesmo que no reino sujo dos sonhos, ao lado de
Jeovanna. Ninguém seria capaz de resistir aos grandes olhos castanhos, àquela
boca pequena, aqueles fios de cabelos encaracolados, e todos diante de ti,
implorando por tua ação para adicionar a eles a qualidade oculta de alegria...
Alegria... Pelos infernos, quem recusaria dar àquela criatura um pouco de
alegria? Uma alegria que com poucos gestos não só a agradaria, mas
transbordaria o seu próprio espírito de felicidade e paixão? Eu digo quem: um
louco.
Dividirei contigo, pois sei que em todo seu
respeito jamais utilizaria a imagem de uma santa para satisfazer suas
fantasias. Jamais se aproveitaria do relato de um homem desesperado para dar a
si mesmo um pouco de prazer. Ainda mais se soubesse que o homem desesperado é
seu melhor amigo e a mulher é a essência da existência do homem que tantos
segredos compartilhou contigo.
Mas
antes de começar a escrever meu relato gostaria de lembrar a ti o que acontece
com os pecadores. Por esse motivo separei esse amontoado de palavras que tu me
enviaste na manhã de sábado, para que lembre o que acontece com os podres de
coração. Oh, sei o destino que me aguarda, não quero o mesmo para ti. Desejo
introduzir o assunto com teu medo, tristeza, pavor, ou qualquer outro
sentimento negativo, para que as palavras que se seguirem causem-lhe repulsa, e
não desejo:
“Deixai toda esperança, vos que entrais.”
Mas vamos ao relato:
Ao céu da noite negra encontravam-se pequenos
pontos brilhantes que destacavam-se por trás das nuvens carregadas. Lembro-me
de ter ficado trinta segundos observando o movimento das nuvens e como as
gigantescas cruéis tampavam sem piedade o brilho das minúsculas pontas de luz
que surgiam. Aquilo me causou espanto, pois não parecia justo um lugar tão
grande apenas dar espaço para um poucos escolhidos gigantes, enquanto outros
seres, encolhidos em sua insignificância, eram apagados e perdiam toda chance
de protagonismo. Não fui capaz de manter tal pensamento por muito tempo devido
a quantidade de tristeza que me causava, foi então que virei minha cabeça para
direita e vi a maior crueldade de todas: uma, não poucas, como eu havia dito,
mas apenas uma, tomava toda atenção de todos entes que bailavam no céu
fazendo-os parecer tão insignificantes que fizesse qualquer um esquecer da
existência de qualquer outra parte do universo. O corpo terrestre setecentas
vezes mais magnifico que os celestes olhou para mim, abriu um sorriso que a
deixou com a beleza de uma deusa antiga, apontou para o alto, e pronunciou
estas palavras:
- Está lindo, não está?
“Anjo, ‘lindo’? o que pode ser lindo ao seu
lado? Tu és como uma vilã, que por fazer contraste com a natureza a transforma
em uma montanha de átomos sem graça enquanto rouba toda graça para ti” foi o
que passou por minha mente, enquanto meu corpo expressava estas palavras:
- Nada disso se compara a você. É tão
perfeita que seria no mínimo loucura chamar matéria inanimada de vida estando próximo
de tua permanência pela Terra.
O que eu tinha dito? Eu a conhecia há quanto
tempo? Uma semana? Por Deus, o que tinha acontecido comigo? Foi nesse ponto que
percebi que não temos controle de nossas atitudes oníricas, pois quando, eu me
pergunto, quando eu teria coragem de dizer estas palavras para ela?
Amigo, a essa altura eu estava pálido,
olhando para cima com os olhos exageradamente abertos enquanto uma gota de suor
escorria de minha testa e desenhava um “S” para baixo. Eu não sabia o que
fazer, tinha acabado de gritar para o mundo “sou um imbecil” porque não conseguia
prosseguir a partir daquele momento. Quer dizer, o elogio estava feito, mas o
que eu poderia fazer depois? Nunca tinha me ocorrido uma cena parecida antes.
Naquele momento o desespero já tinha se enraizado nos meus pensamentos... Mas
como o destino me foi bondoso! Sabe o que ela fez? Quer saber o que ela fez?
Ah, eu amo o destino, e amo a Entidade que o criou.
Jeovanna advertiu-me dizendo que não seria
educado fazer um elogio a uma mulher e virar o rosto, pois isso pareceria sinal
de desdenho. Assim que me dei conta do que tinha feito, voltei meu campo de
visão para ela pude ver sua boca se movimentando para dizer:
- Isso foi lindo, Johannes. Não sabia que
tinha essa sensibilidade. Sabe, foi um alívio ouvir isso de você. Sempre quis
te dizer o que senti ao te ver naquele dia, na porta de tua casa. Na verdade,
queria antes descobrir o que foi, pois não sei nominar aquele sentimento,
queria dizer que algo me empurrava para cima de você para que te sentisse de
perto, para que eu pudesse estar cada vez mais próxima de você, a ponto de nos
encostarmos, queria te beijar, queria senti-lo dentro de mim.
Oh, por Deus, lágrimas descem pelos olhos ao
lembrar dos dela brilhando ao me dizer estas palavras. Aquele momento me fez
perceber que todo esse tempo eu tinha vivido desejando sempre matar o tempo, me
distrair, para que ele pudesse passar depressa, e no entanto, a frase daquela
jovem mulher me fez querer ser eterno, me fez desejar (e que os deuses me
perdoem) ser imortal!
Jeovanna, e-eu... – Quando ia dizer algo
qualquer que me veio à cabeça, ela encostou seus lábios aos meus, e a partir
desse momento não fazia mais sentido usar minha razão para elaborar qualquer
frase.
Oh, amigo, o contado da pele bocal dela na
minha era como experimentar todos os alucinógenos existentes ao mesmo tempo. E
quanto mais eu tinha daqueles lábios, mais os queria. Com os olhos fechados, passei meu braço
esquerdo por cima de seu corpo fazendo minha mão se encontrar com sua cintura, então
puxei-a, trazendo seu tronco junto ao meu com delicadeza, quase temendo
quebrá-la. Aos perceber seu peito tocando meu, senti um impulso de prazer em
mim. Não pude evitar passar meu braço direito por baixo do meu corpo para
encontra-lo com os seios dela. Minha mão explorando aquela nova descoberta
pedia para entrar por suas vestes e sentir seu calor. Nesse momento,
Jeovanna me afastou para que pudesse
despir-se com mais liberdade. Ao ver cada parte de seu corpo desnuda, os mais
puros desejos manifestavam-se tanto em corpo, quanto em minha mente. Ela era
perfeita, cada parte de seu corpo, desde seus pés pequenos, até seus cabelos
negros. Mesmo seus defeitos eram
perfeitos. Eu poderia admirá-la durante toda a minha vida que nunca ficaria
entediado. Era uma beleza divina, do tipo que faz infiéis acreditarem em Deus e
artistas deprimidos recuperarem inspiração.
Ao admirar seus avantajados seios, algo em
minha alma se perdeu, meu lado angelical caiu. As duas formas circulares
transbordavam amor e desejo, eu jamais havia visto uma cena tão pecaminosa e
tão atraente em toda minha vida. Foi-me inevitável não beijar os pequenos
pedaços do paraíso, e quando percebi já estava lambendo-os como um animal
apreciando sua presa já abatida. Dei-me conta de que naquele momento tudo se
fora: minha castidade, inocência, delicadeza... tudo. Meu desejo aumentou ao
ver a luxúria gritando nos olhos de minha amada. Quando ouvi seu primeiro
gemido de prazer quase não resisti, pois desejava penetrá-la imediatamente.
Porém, como queria vê-la no ápice de prazer, pensei que o melhor a se fazer era
me controlar. Eu queria aproveitar cada momento, cuidadosamente.
Mas não fui capaz de me controlar totalmente,
e como um animal, rolei por cima dela, prendendo-a no chão pelos pulsos, e ao
perceber que sua respiração se tornara mais ofegante, beijei-a violentamente.
Porém, em um momento de descuido, ela se desprendeu e rolou por cima de mim. Ao
fazer isso, voltei minha atenção a sua pele, sentindo nela o gosto de
embriaguez e o cheiro de sexo. Ela mexia o quadril causando atrito em nossas
intimidades latejantes de excitação.
Amigo, não sei como ousam expressar uma
experiência quase fantástica com um como algo como “fazer amor”. Fazer amor é
muito pouco para tamanha paixão. Eu queria trepar com ela. comê-la, fodê-la.
Violentamente. Incessantemente. Desesperadamente. Só assim conseguiria dar-lhe a paixão que sentiria. Eu precisava
daquilo, ou a paixão se acumularia em mim, explodindo meu corpo, dilacerando
minhas tripas.
Ela estava concentrada em meu corpo, e eu no dela.
Não sabia mais quem eu era, minha essência desaparecera. A única coisa que
minha cabeça conseguia produzir eram frases como “preciso de seu corpo,
Jeovanna, preciso como o alimento para me manter vivo”. Eu lambia o pescoço dela, descendo pela
barriga até sua intimidade. Chupei, lambi e beijei-a toda, cada gemido de Jeeovanna
me deixava mais dolorosamente excitado.
Nesse momento não consegui mais me controlar,
eu precisava penetrá-la imediatamente. Joguei-a contra a uma arvore, quase que
com raiva. Fui até ela e pressionei-a fazendo-a sentir o quanto eu estava
excitado, duro. Não conseguia ter um pensamento racional sequer. Todo meu ser
estava perdido naquele instante luxurioso. Minha visão estava embaçada, minha
mente parecia ter se enfurecido com meu corpo, eu não o controlava mais.
Invadi-a. Invadi-a com muita força. Um rugido animalesco escapou por entre
nossas gargantas ao mesmo tempo. Isso que o sexo nos transformou. Animais.
Continuei invadindo-a bruscamente, cada vez
mais rápido, seus gemidos a cada penetração mais altos e desesperados.
Poderíamos desmaiar de tesão. Enfim o ápice de nossa aventura chegou. Atingi o
orgasmo junto a ela. Seu rosto... Aquele lindo rosto estampado de prazer, quase
um sofrimento de tão forte que era aquela sensação. Parecia que morreria a
qualquer instante. Não. Estava no desfiladeiro da vida e da morte. Como pode um corpo mortal aguentar tamanho
prazer?
Ao acordar, a tristeza me possuiu por
completo, pois ao alcançar o paraíso, este me foi roubado sem piedade. Ao lembrar
do ocorrido, me sinto extremamente feliz, mas depois vem o sentimento de culpa
seguido pela tristeza de não poder reviver aquilo.
Sou um pervertido.
Lembre-se do inferno, amigo.
Adeus.
bruno-rosario-xavier@hotmail.com


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