Amor,
Mamãe: Cadê a fé?
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| Foto Arquivo |
Em
2013 eu estava caminhando por uma rua estreita na periferia de Santiago, no
Chile, quando uma criança de pouco mais de cinco anos perguntou a sua mãe o que
havia acontecido com a fé? A forma como o pequenino dizia me dava impressão de
que ele falava de fé como sendo uma pessoa, de presença e corpo físico,
material. A mãe tratou de dizer ao filho que ela havia perdido a fé, já que não
bastasse a morte de seu esposo, agora haviam perdido a casa onde viviam.
Sentados
na beira da calçada, a espera do ônibus que os levaria para o centro da cidade,
coloquei-me ao lado dessa família, em pé, para poder ouvir a sequência da
conversa. Então o menino respondeu: “Mas se a fé foi embora, você vai morrer?”
– A pergunta chocou a mãe por um instante, ao que ela respondeu: “Não! Eu não
vou morrer!”
Pouco
depois, já no ônibus, pude compreender a profundidade da pergunta daquela
criança, magrela, tímida, mas de alma e coração nobres. Pedi a mãe se poderia
falar com ele, ela assentiu com a cabeça, então perguntei:
- Como se chama?
- Ruan.
- Por que você acha que a fé foi embora?
- Sempre que perdíamos alguma coisa, ou papai ficava doente,
minha mãe dizia que saia com fé vender os doces e comprava remédio.
- Mas seu pai morreu, não é mesmo?
- Sim, mas se a fé morreu junto, minha mãe também vai morrer.
Eu também vou morrer. Ela saia com a fé para a rua, vendia os doces, comprava
comida, era assim todo dia.
O
pequeno Ruan, em sua inocência, tinha um entendimento sobre a fé muito maior
do que qualquer sacerdote, reverendo ou místico que já tenha escrito os mais profundos textos sobre o tema. Aquela criança em sua simplicidade, sabia que ausência
de fé, significava falta de esperança, e que quando faltava esperança, a
possibilidade de vida se esgotava. Muitas crianças como Ruan estão gritando ao
mundo para que tenha esperança, que não perca a fé, o dom de acreditar nas coisas.
Ruan sabia que a única chance de continuar com sua família era se a fé voltasse para
dentro de sua casa, para o interior de sua mãe. Ele não sabia se a fé era uma
pessoa, uma amiga, parente, apenas que ela era responsável por mover a sua vida
e a vida da sua família. Conversando mais com Ruan, percebi que ele guardava
certa mágoa, não de sua mãe, ou das agruras da vida, mas da fé, a quem o
pequenino em sua inocência, pensava ter ido embora, como se tivesse pernas para
andar, e não fosse apenas um sentimento.
Passei
a me perguntar, se de fato sabemos o que é a fé? Se temos consciência do seu
poder, da sua magnitude? Ruan sabia que a fé movia a vida de sua família, pois
dava forças a mãe, esperança aos de sua casa. Quantas pessoas hoje vivem no
mundo dos vivos mas vagando como mortos? Quantos perderam a esperança, a fé, e
já não sabem onde encontrá-la?
Eu
dei quatro dólares a mãe de Ruan e peguei um doce de amendoim. Ela sorriu para
mim e agradeceu. Olhei para o menino e perguntei:
- Onde você acha que a fé está?
Ruan não me respondeu. Apenas apontou para o sorriso nos lábios de sua mãe!
Eu
compreendi naquele momento, não apenas onde estava a fé, mas onde estava o
sentido da vida.
Texto: Patrick René - contato@patrickrene.com.brEdição: Bianca de Lucca - bianca.delucca@patrickrene.com.br


Belíssimo texto Patrick!
ResponderExcluirMais uma vez parabéns moço de cérebro brilhante.
Jane Di Lello.