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Mamãe: Cadê a fé?

08:34 Equipe Das Letras 1 Comments

Foto Arquivo

 Em 2013 eu estava caminhando por uma rua estreita na periferia de Santiago, no Chile, quando uma criança de pouco mais de cinco anos perguntou a sua mãe o que havia acontecido com a fé? A forma como o pequenino dizia me dava impressão de que ele falava de fé como sendo uma pessoa, de presença e corpo físico, material. A mãe tratou de dizer ao filho que ela havia perdido a fé, já que não bastasse a morte de seu esposo, agora haviam perdido a casa onde viviam.
Sentados na beira da calçada, a espera do ônibus que os levaria para o centro da cidade, coloquei-me ao lado dessa família, em pé, para poder ouvir a sequência da conversa. Então o menino respondeu: “Mas se a fé foi embora, você vai morrer?” – A pergunta chocou a mãe por um instante, ao que ela respondeu: “Não! Eu não vou morrer!”
Pouco depois, já no ônibus, pude compreender a profundidade da pergunta daquela criança, magrela, tímida, mas de alma e coração nobres. Pedi a mãe se poderia falar com ele, ela assentiu com a cabeça, então perguntei:
- Como se chama?
- Ruan.
- Por que você acha que a fé foi embora?
- Sempre que perdíamos alguma coisa, ou papai ficava doente, minha mãe dizia que saia com fé vender os doces e comprava remédio.
- Mas seu pai morreu, não é mesmo?
- Sim, mas se a fé morreu junto, minha mãe também vai morrer. Eu também vou morrer. Ela saia com a fé para a rua, vendia os doces, comprava comida, era assim todo dia.
O pequeno Ruan, em sua inocência, tinha um entendimento sobre a fé muito maior do que qualquer sacerdote, reverendo ou místico que já tenha escrito os mais profundos textos sobre o tema. Aquela criança em sua simplicidade, sabia que ausência de fé, significava falta de esperança, e que quando faltava esperança, a possibilidade de vida se esgotava. Muitas crianças como Ruan estão gritando ao mundo para que tenha esperança, que não perca a fé, o dom de acreditar nas coisas.
Ruan sabia que a única chance de continuar com sua família era se a fé voltasse para dentro de sua casa, para o interior de sua mãe. Ele não sabia se a fé era uma pessoa, uma amiga, parente, apenas que ela era responsável por mover a sua vida e a vida da sua família. Conversando mais com Ruan, percebi que ele guardava certa mágoa, não de sua mãe, ou das agruras da vida, mas da fé, a quem o pequenino em sua inocência, pensava ter ido embora, como se tivesse pernas para andar, e não fosse apenas um sentimento.
Passei a me perguntar, se de fato sabemos o que é a fé? Se temos consciência do seu poder, da sua magnitude? Ruan sabia que a fé movia a vida de sua família, pois dava forças a mãe, esperança aos de sua casa. Quantas pessoas hoje vivem no mundo dos vivos mas vagando como mortos? Quantos perderam a esperança, a fé, e já não sabem onde encontrá-la?
Eu dei quatro dólares a mãe de Ruan e peguei um doce de amendoim. Ela sorriu para mim e agradeceu. Olhei para o menino e perguntei:
            - Onde você acha que a fé está?
Ruan não me respondeu. Apenas apontou para o sorriso nos lábios de sua mãe!
Eu compreendi naquele momento, não apenas onde estava a fé, mas onde estava o sentido da vida. 
Texto: Patrick René - contato@patrickrene.com.br
Edição: Bianca de Lucca - bianca.delucca@patrickrene.com.br 

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Um comentário:

  1. Belíssimo texto Patrick!
    Mais uma vez parabéns moço de cérebro brilhante.
    Jane Di Lello.

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