A vida quer pedra!
As vezes a vida exige de você que no lugar do coração, bomba pulsante de sangue, seja colocada uma pedra, daquelas sem nenhum polimento, nenhum brilho, rústica, metamórfica. Você então acha que não, que o coração é algo muito melhor, mais humano, dotado de capacidades privativas da condição humana, você desiste da pedra e segue com seu coração.
A
questão é que a vida é quem guia as rédeas da carroça e não o seu pensamento,
as suas convicções, os seus achismos, então você descobre que a carroça pode
mudar de direção a qualquer momento, e, sim, é bem nesse momento que ela, a
vida, vira sua carroça e acaba com seu coração. Aceita uma pedra?
O
maior problema de nós, inacabados e imperfeitos humanos é que somos
presunçosos, pensamos que temos algum tipo de controle sobre a vida e seu
correr, mas na verdade a única coisa que conseguimos com essa vã insistência é
uma sucessão de corações partidos, almas doloridas e lágrimas, tantas que
chegam a secar.
Uma
pedra! Disse a vida em alto som. Seria muito mais fácil ouvir a vida e dar a
ela o que quer, de colocar no lugar do coração que se fere com tanta facilidade,
uma rocha, rustica, imaleável, praticamente imutável. Doeria menos, não
sangraria, mas alguns de nós somos dotados de uma inclinação ao masoquismo e
ainda assim damos preferencia ao coração sanguinolento, sensível, que se abala
a qualquer mudança mais drástica da vida.
Pobre
homem, disse a vida. Passará por toda essa estrada derramando sangue pelo
caminho. Na verdade a vida falava de dois tipos de pessoas, dois tipos
distintos e com finais diferentes, mas com um mesmo destino.
Um
homem, o que preferia o coração, sensível e sanguinolento, passou por todo o
caminho, sentiu todas as dores, viveu todas as emoções e sim, machucou-se tanto
que morreu. Em seu leito de morte, fez-se o seguinte questionamento: De que
serve um coração?
O
outro homem, o que ouviu a vida e pôs no lugar do sensível coração uma pedra,
rocha inanimada e rústica, esse passou por todo o caminho, esbanjou-se de
prazer, viveu e conviveu com tudo que a vida poderia lhe proporcionar de
melhor, gozou do luxo, da inteligência, do poder, e no entanto em seu leito de
morte, uma pergunta lhe veio a mente: Como seria ter um coração? Como seria ter
sentido todas as coisas que apenas provei?
A vida,
tirana como só ela, olhou os homens, tragueou fundo seu cigarro longo, em uma
piteira dourada, balançou a cabeça, deu de ombros, soltou um tímido sorriso e
voltou ao seu curso normal.


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