A vida quer pedra!

16:02 Equipe Das Letras 0 Comments



As vezes a vida exige de você que no lugar do coração, bomba pulsante de sangue, seja colocada uma pedra, daquelas sem nenhum polimento, nenhum brilho, rústica, metamórfica. Você então acha que não, que o coração é algo muito melhor, mais humano, dotado de capacidades privativas da condição humana, você desiste da pedra e segue com seu coração.
A questão é que a vida é quem guia as rédeas da carroça e não o seu pensamento, as suas convicções, os seus achismos, então você descobre que a carroça pode mudar de direção a qualquer momento, e, sim, é bem nesse momento que ela, a vida, vira sua carroça e acaba com seu coração. Aceita uma pedra?
O maior problema de nós, inacabados e imperfeitos humanos é que somos presunçosos, pensamos que temos algum tipo de controle sobre a vida e seu correr, mas na verdade a única coisa que conseguimos com essa vã insistência é uma sucessão de corações partidos, almas doloridas e lágrimas, tantas que chegam a secar.
Uma pedra! Disse a vida em alto som. Seria muito mais fácil ouvir a vida e dar a ela o que quer, de colocar no lugar do coração que se fere com tanta facilidade, uma rocha, rustica, imaleável, praticamente imutável. Doeria menos, não sangraria, mas alguns de nós somos dotados de uma inclinação ao masoquismo e ainda assim damos preferencia ao coração sanguinolento, sensível, que se abala a qualquer mudança mais drástica da vida.
Pobre homem, disse a vida. Passará por toda essa estrada derramando sangue pelo caminho. Na verdade a vida falava de dois tipos de pessoas, dois tipos distintos e com finais diferentes, mas com um mesmo destino.
Um homem, o que preferia o coração, sensível e sanguinolento, passou por todo o caminho, sentiu todas as dores, viveu todas as emoções e sim, machucou-se tanto que morreu. Em seu leito de morte, fez-se o seguinte questionamento: De que serve um coração?
O outro homem, o que ouviu a vida e pôs no lugar do sensível coração uma pedra, rocha inanimada e rústica, esse passou por todo o caminho, esbanjou-se de prazer, viveu e conviveu com tudo que a vida poderia lhe proporcionar de melhor, gozou do luxo, da inteligência, do poder, e no entanto em seu leito de morte, uma pergunta lhe veio a mente: Como seria ter um coração? Como seria ter sentido todas as coisas que apenas provei?
A vida, tirana como só ela, olhou os homens, tragueou fundo seu cigarro longo, em uma piteira dourada, balançou a cabeça, deu de ombros, soltou um tímido sorriso e voltou ao seu curso normal.

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