O grotesco é assinatura do diabo*
Um
amigo de intelecto invejável, foi quem escreveu a frase que faz a vez de título
deste texto. Isto posto, digo que todo intelecto, quando usado para o bem e
para as obras de justiça, são portanto, também, assinatura de Deus.
Este
adjetivo, “grotesco”, tem uma história bem interessante: na Idade Média, quando se começou a
explorar os prédios da época em que Roma estava no auge, descobriram-se
pinturas decorativas nas suas paredes, que chamaram, em Italiano, “pitture
grotesche”, ou seja, “pinturas de grutas”.
Já gruta, vem do grego, “krypta”,
“lugar subterrâneo, lugar coberto”, do verbo “kryptein”, “tapar,
encobrir, esconder”. E, a partir do significado inicial de “fantástico,
diferente, irregular”, se desenvolveu o de “ridículo, extravagante, bizarro” e
se chegou então ao adjetivo, que enuncia este texto: grotesco, do italiano “grotesche”.
Antes que se pergunte, o texto não será
sobre etimologia das palavras, longe disso, apenas gostaria que tivéssemos
ampla compreensão da palavra que norteará este texto, para que possamos, ainda
que em uma tentativa, sair da superficialidade e mergulhar em “águas” mais
profundas.
Se afirmamos que o intelecto quando
utilizado para o bem e para a justiça é como que assinatura de Deus, que a
profundidade deste texto (em caso de se lograr êxito), seja debitada a conta da
divina graça de Cristo.
Esta semana, com afinco, tomei em minhas
mãos o livro de Santa Tereza D`Ávila, intitulado “Castelo Interior”, escrito no
dia da Santíssima Trindade, no ano de 1577, no Mosteiro de São José do Carmo,
em Toledo na Espanha.
Eu já tinha ouvido falar em Tereza
D`Ávila, e até conhecia fragmentos de sua obra, mas tudo muito superficial,
diferente, e muito, de entrar em sua construção, a saber, o Castelo Interior.
Se me fossem dados meios de reproduzir
esta obra em grande escala, deveria ser distribuída aos quatro cantos da terra,
e, depois de lido, deveríamos engolir o livro, na tentativa de que cinco por
cento do que ali é ensinado, permanecesse em nós, e permitisse nossa entrada,
nem que por uma das janelas, do nosso próprio castelo.
Vivemos dias de escuridão, de trevas
densas. Dias difíceis, para alguns mais que para outros, mas, sem exceção, não
são dias de sol. O amor esfriou, esquecemo-nos do bem, temos dificuldade em
compreender e enxugar as lágrimas do nosso irmão, e já desaprendemos a
importância do cuidado do zelo e até mesmo a noção do sagrado.
Não são tempos de liberdade, mas de
libertinagem. Poucos ainda cuidam do templo do Espírito Santo, isso quando
lembram que o Espírito habita o corpo. O certo passou a ser errado e o errado a
ser certo. Homem virou mulher e mulher virou homem. Defende-se a morte dos
inocentes em rede nacional de televisão, e a quem destes tira o direito a vida,
denomina-se de vítima.
As igrejas que pregam Deus e não finanças
cada vez mais vazias, e os bares, boates e casas noturnas cada vez estão mais
cheias. Vendem-se mais pingentes com símbolos de times de futebol do que de
cruz. Ah! Se nós soubéssemos o valor da cruz.
Sobre a cruz, bem, até de ponta cabeça é
usada. Outros ainda (por ignorância ou não) condenam os poucos que a usam,
dizendo que é um amuleto. Para estes, saibam que a cruz que se carrega no
peito, não é um amuleto, é sinal de salvação, de graça, de amor.
Enfim parece que todas as velas se
apagaram, os sinos pararam de bater, o cântico foi interrompido, e o grotesco
tomou os lugares que os filhos de Deus deixaram vazios.
Como é que nós podemos por qualquer forma,
pensar em melhorar o mundo, se até com nossas almas perdemos o contato? Que
esperança pode haver para uma humanidade que se fez tão “humana” ao ponto de se
fechar completamente para as coisas do alto e andar arrastando o nariz na lama?
Na sujeira?
Até a lei e a justiça parecem estar mais
ao lado dos criminosos de que das vítimas. Na arte, o grotesco é mais uma vez
valorizado. Na música, crianças dançando como as prostitutas do templo são
incentivadas pelos próprios pais. E quem falar contra aquela musica é antiquado
e retrógrado, e, pode até ser processado e preso. Discriminação.
Mulheres com cabelos brancos e homens
tingindo de ruivo. Idosos assistindo ao Chaves e crianças contando quantos
níveis passou no jogo em que o vencedor é quem mata o maior número de pessoas.
E a sensibilidade? Um pai espancou seu
filho até a morte pois ele lavava a louça. Coisa de mulher, pensava o monstro.
Perdeu-se o equilíbrio em tudo. A gangorra já não tem mais ponto de equilíbrio,
esta ou para a direita ou para a esquerda.
Precisamos nos esconder para rezar, do
contrário seremos eternamente condenados pelos amigos da escola. Crianças que
gostariam muito de ir a igreja, vão como se forçadas para provar que não
precisam ir, e lá escarnecem do sagrado, para não serem ridicularizados. As
roupas de “coroinha” anos atrás disputadas, hoje são vestidas até com certa
vergonha.
Que mundo se esta construindo? Onde vemos
a assinatura de Deus nos dias de hoje?
Que possamos refletir mais sobre quem
somos, sobre nossos valores, nossas dores... Pensar sobre nossas amizades,
nossas distrações... Refletir sobre Deus e nossa relação com Ele... Sobre o que
consideramos ouro e o que jogamos no lixo como sendo papel... Joio e trigo...
Pérolas e porcos...
Alma e matéria... Céu e inferno... Certo e errado...
Nossa alma é como um castelo, este castelo
como um palmito, tem muitas cascas até chegar a parte que se pode comer, mas as
coisas boas, quase todas tem alguma casca. Que possamos encontrar novamente
nossas almas, mergulhar em sua profundidade, descobrir os ambientes deste
castelo e voltarmos de novo, com pressa, para Deus.
O grotesco é assinatura do diabo.
Por Patrick René
*Frase do título de: Vinícius Moreira


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