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Sexo & Cultura: Duvida de quê? Parte1

13:24 Equipe Das Letras 2 Comments

Em uma ampla pesquisa que realizei sobre sexo e sexualidade, pude observar que no Brasil falar de sexo não é necessariamente falar em prazer, tesão, transas incríveis. Falar de sexo no Brasil também é falar de dor. E é sobre isso que vou falar nesse primeiro texto de uma série sobre Sexo e Cultura. O número de jovens e adolescentes que sofreram, sofrem e virão a sofrer algum tipo de abuso é imenso e deve crescer cada vez mais. O motivo: O pensamento de que se não mexer em uma ferida ela irá parar de doer.

Astrid é uma menina do subúrbio da cidade de Laval, na província do Quebec, filha de pais com um casamento atribulado e que vivem entre brigas e contendas familiares, cresceu a mercê de qualquer educação maternal e a margem do desprezo do pai. Astrid aos 9 anos foi abusada por seu tio e aos 12 por seu irmão, reflexo de uma família desequilibrada, e mais do que isso, vítima de uma violência injustificável. O problema todo é que a forma de Astrid lidar com o problema era dar de ombros para ele. Achar normal o acontecido, lidar com o medo das consequências que poderiam atingir o abusador, e por consequência enterrar sua vida e seu futuro no mais profundo esconderijo.

Falar de sexo no Brasil é falar também de dor. Pública e privada. Conforme ressalta Engel, a dor é um “dado privado”, isto é, para sabermos se alguém tem dor, dependemos de uma demonstração verbal ou não verbal deste fato por parte da pessoa. Ai iniciam-se os problemas: Quem esta disposto a falar de suas dores, e mais: Quem esta disposto a ouvir a dor de seu próximo sem emitir um julgamento carregado de preconcepções e coisas do tipo?

Em minha abordagem, pude observar que não são uma nem duas as vítimas de abusos sexuais que jamais relataram o ocorrido as autoridades e se quer a suas famílias. Pasmem que das pessoas abordadas e que contaram o ocorrido a família, ínfima porcentagem tomou alguma providencia, e quando esta foi tomada, em geral, foi contra a própria vítima. 

O comportamento de dor, especialmente em seus aspectos voluntários, é influenciado por fatores sociais, culturais e psicológicos. Esses fatores determinam se a dor privada será traduzida em comportamento de dor, assim como determinam a forma que tal comportamento vai assumir, além do ambiente social em que ele ocorrerá.

O tema dos direitos humanos das mulheres é muito significativo para as feministas porque a incorporação dos direitos das mulheres como direitos humanos não foi ou é uma tarefa fácil, nem na perspectiva teórica nem na atuação prática. O Brasil em tese e lei é um Estado Democrático de Direito e tem como fundamento a dignidade da pessoa humana, mas é justamente na dignidade que iniciam os maiores problemas.

Quem nunca ouvir frases do tipo “o que é bonito é pra se mostrar” ou então o famoso e não menos infame “Oh! Gostosa” uma vez que os que proferem tais descalabros são confrontados defendem-se com coisas do tipo “mas olha a roupa que ela usa” ou põe a desculpa na saia, no vestido no batom. A  questão é que a roupa, a forma de andar, de caminhar não confere a outra pessoa o direito ao “abuso” funesto de proferir impropérios a quem quer que seja.

A pessoas que sofreu ou sobre algum tipo de abuso precisa sim denunciar as autoridades, mas precisa antes de mais nada realizar uma busca minuciosa atrás de sua essência, pois como vítima que é, antes de recuperar o que quer que tenha perdido, precisa recuperar o brilho do olhar, pois sem esse, eu afirmo, ninguém consegue viver.

Pense. Reflita. Reflexione. É possível vencer o abuso sexual, é possível dar a voltar por cima, mas antes é preciso se reencontrar, tomar as rédeas da própria vida e providenciar um enterro, não o próprio mas das feridas que precisam ser jogadas fora.

E sobre Astrid, a menina do inicio do texto: Ela venceu a vida! 


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Patrick René é sociólogo especialista em sociologia da saúde, colunista da Global Mining News do Canadá e também escreve no jornal The Reflector. 

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2 comentários:

  1. Gostei do texto. Acho que esse tipo de tema precisa realmente ser abordado!
    É comum que as pessoas não toquem nesses assuntos por acharem polêmicos ou por medo de divergir, mas é justamente por isso que certas práticas perduram.
    Parabéns pela escolha!

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  2. Patrick, sensibilidade que é só tua exalada nesse texto. Como sempre um cultivador da cultura e do conhecimento!

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