Amor,

Eu Acredito em Ex-Gay

17:00 Equipe Das Letras 0 Comments

Eu acredito em ex-gay. Um, inclusive, me salvou na sexta passada. A semana tinha sido corrida. Sem tempo nem para respirar. Sexta, bato o olho nas unhas e quase morro de vergonha. Descascadas, aspecto desleixado, um horror.

Passo a manhã de dedos encolhidos, mãos nos bolsos, escondendo minha vergonha. Almocei sanduiche em cinco minutos e já cheguei atrasada na escola da tarde. Subo sem fôlego e dou de cara com ele: meu aluno ex-gay!

Feliz, à vontade, pernas cruzadas. Cantando e tirando esmalte das unhas. Pelo visto a semana dele também tinha sido corrida. Quase pulei no vidro de acetona.

- Me empresta um pouco?

- Ai, claro, prof!

Minha salvação! Fui explicando a matéria e tirando esmalte velho. De unha limpa, uma nova mulher, mostrei minhas mãos para ele. Ele me mostrou as dele: unhas lindas, enormes, bem cuidadas. Inveja.

- Novidade, prof! Agora eu sou da igreja!

Ser da igreja, para meus alunos gays, quer dizer que não é mais gay. Gay não pode ser de algumas religiões. Acham que Deus não gosta. Como se para Deus fizesse alguma diferença.

Já ouvi de um que me disse rindo:

- Veja só, professora, a tia dela acha que eu sou gay! Alô, como posso ser gay? Eu sou da igreja!

Os colegas se encararam assustados com o absurdo da declaração. Então ele não era mais gay? Tinham esquecido de avisar. Por amizade, disfarçaram e prenderam o riso.

Meus ex-gays da igreja são realmente esforçados na tentativa de se enquadrar no que seja o padrão de bom cristão. Eu entendo. Ser homossexual não é fácil. Você assume, abertamente, o que muitos escondem e fingem não sentir. Incomoda. Assumir essa posição é para fortes.

Tem que ser muito corajoso. Apesar de toda a pressão, eles seguem seu coração. Respeitam suas vontades. E se expõem sem medo de ser feliz. Ou com medo mesmo. Pagam caro por isso, mas não desistem de seus desejos.

As pessoas comentam, os colegas riem, a família rejeita. A sensação de ser de lugar nenhum é triste. O homossexual muitas vezes se vê no vácuo sem amigos e sem afetos.

Como peixe no deserto, ou árvore plantada no mar. O vazio dos que ousam andar na contramão do que seria o esperado. Eles tentam se enquadrar para aplacar a solidão. Para se sentir menos diferentes, serem aceitos como iguais. Mas o que fazer com os impulsos que vêm de dentro e não querem calar? Com a atração que puxa para um lado quando era para ser de outro?

Quem dirige o leme dos seus planos, anseios e futuro? Quem manda no coração? Quem faz as leis que o tesão teria que cumprir e nem lê?

Dou aula para vários ex-gays. São ótimos, criativos, animados. Os mesmos homossexuais de antes. Só que com essa nova nomenclatura. E a cor do esmalte da unha que antes era vermelho e agora é transparente.

O que é certo? O que é errado? O que pode ser sentido? O que não pode e tem que ser amordaçado? Não há lei que governe o desejo. Não há antolhos para o tesão. Em amor não se bota cabresto. Posso sentir o que eu quiser. Não fazendo mal a ninguém, o que é que tem? Deixem o amor em paz.

Os Estados Unidos comemoram a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país. Aqui no Brasil, na contramão do progresso, cresce uma tendência de normatizar o desejo alheio. E de adoecer o que na verdade é só escolha. A escolha do amor não tem classificações em homo, hetero, negro, branco, pobre ou rico. Amor não tem sobrenome. Dispensa apresentações.

” A grande maioria dos consultórios de psicólogos é uma fábrica de homossexuais”. Essa foi a infeliz declaração que o pastor Robson Staines, dia 25 de junho, deu na sessão da câmara dos deputados.

Essa fala aconteceu numa audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Desrespeitaram o meu trabalho como psicóloga. Desrespeitam o direito dos homossexuais de viverem seus desejos em paz.

Essa posição nada tem de direito, nem de humana. É uma aberração. Você pensa que não pode piorar? Aí o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) pede aos deputados que produzam 5 mil cópias em DVD de "alta resolução para esparramarem" pelo País as falas preconceituosas e desinformadas de seu colega pastor.

Basta! Cuidem da saúde que cai aos pedaços, da educação sucateada, da segurança que pede socorro! Me dói ver meu dinheiro sendo desperdiçado dessa forma. Jogado no lixo. Me preocupa uma pessoa com esse nível de desconhecimento, e de desrespeito à ciência e ao trabalho alheio, ganhando espaço em nossos espaços políticos. Cuidem do que é público. Dos afetos e amores, cada um que cuide dos seus.

Pagamos por esse desserviço! Quando vamos abrir os olhos? Quando vamos tomar providências?

No meu consultório atendo pessoas que chegam com chagas, dores, mágoas de tantas asneiras que escutaram pela vida a fora. Não fabrico homossexual, nem hetero. Não fabrico nada.

Gente não é para ser fabricada, nem doutrinada. Gente não é gado. Gente é para voar, não para se arrastar em culpas pela vida. A vida é curta demais para entrar num quadrado quando se quer o redondo.

Tirando meus alunos ex-gays, com quem divido a acetona, não acredito em nenhum outro tipo. Acredito em gays que, por circunstâncias várias, acham que não podem sair do armário. E quanto mais o instinto lhes atenta, mais eles gritam contra a homossexualidade. Perseguem, espancam e maltratam os homossexuais pelas ruas. Fazem por medo do que sabem que têm de igual.

Batem nos homossexuais de fora. Porque a duras penas, conseguem manter o de dentro deles preso. Por isso precisam guerrear. Lutar fora contra o que de dentro ameaça se manifestar.

Entenderam porque homossexuais são perseguidos? Eles não são uma ameaça à sociedade. Nem a nada. Eles só ameaçam todos os que se amordaçam internamente com medo de seus instintos mais secretos.

Somos únicos. Não há duas de mim, nem de você. Somos lindos cada um a seu jeito. Reflexos de luz de todas as cores. Qual o seu número? Qual a cor do seu desejo? Sua opção sexual? Não importa. Nem é da conta de mais ninguém. O que te faz bem é o que é bom para você.

Homossexuais não são de Deus? Pense diferente! Pense colorido! O que não é de Deus é perseguir, humilhar, maltratar e excluir. Deus é amor. De que tipo? Quem disse que amor tem tipo? Amor não enquadra, amor expande. É amor! É o que basta.

Da sensibilidade descomunal de minha amiga Mônica Raouf el Bayeh 
http://www.poesiatodaprosa.blogspot.com
http://extra.globo.com/mulher/um-dedo-de-prosa/ 

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