Amor,
Minha alma, meu amigo, meu mais precioso bem. A ferramenta que Deus me concedeu para contemplar sua criação... e... que criação!
Os Diários de Johannes - O Encontro de Jeovanna!
Brunus Von Haimrich, trás hoje mais um capítulo dos "Diários de Johannes" em sua coluna "Teoria de Big Heel". Se você perdeu o "Prólogo" e o "Cápitulo 1" clique aqui! Boa leitura!Minha alma, meu amigo, meu mais precioso bem. A ferramenta que Deus me concedeu para contemplar sua criação... e... que criação!
Por que começo minha carta virtual evocando o
nome de Deus e suas criaturas? Porque conheci a mais perfeita delas nesse dia,
homem. Apenas um Ser dotado de onipotência poderia dar o sopro de vida a uma
escultura de barro tão perfeita quanto Jeovanna. Não posso dizer mais nada
sobre esse anjo, pois todo meu intelecto passou a utilizar suas energias apenas
com a memória, para poder, pelo menos por alguns instantes, contemplá-la mais
uma vez, e, como o “mais uma vez” nunca é o suficiente, torno a explorar minha
memória para encontrar outro resquício de imagem da donzela que facilmente
tomaria o posto de Afrodite.
Nem sei como te escrevo, é apenas
meu corpo relatando o que viu hoje, pois minha mente se encontra voltada para
ela própria, e não percebe o que acontece ao seu redor. Minhas mãos acabará por
denunciar minhas aventuras e em poucos minutos você saberá como fui agraciado
hoje.
Como prezo a companhia humana, Haimrich! Deus sabe
como valorizo este bem, atribuindo-lhe importância acima do que qualquer pessoa
julgaria necessário. Para mim não há nada mais prazeroso que aproveitar de uma
boa conversa, então olhar o relógio e perceber que muito tempo já se passara
desde que começou este divertimento. O quão paradoxal é a vida! Justamente quando gozamos dos bens da
existência, é quando distraímo-nos de tal forma, que tudo ao nosso redor deixa
de ser levado em conta e o próprio ato de existir nem é lembrado por nós. Juro
que se os movimentos vitais de meu corpo não agissem de modo voluntário, já
teria eu deixado esse plano há muito tempo. E como tenho tido destes
maravilhosos momentos aqui. Todos que me cercam esforçam-se, da maneira mais
pura, para me dar atenção (talvez por eu ser uma novidade, mas isso não me
importa). A senhora que mora na casa ao lado já me visitou duas vezes hoje com
um “precisa de algo, querido? Qualquer coisa é só me chamar, viu?” nos lábios.
No entanto, como tudo na vida é luz e sombra, devo
dizer que por vezes toda esta atenção me enfada, e me sinto pressionado como um
corpo travando uma batalha contra uma roupa apertada. Ora, um homem precisa de
seu tempo livre para fazer suas coisas, colocar os fantasmas dos pensamentos em
dia... aliás esse foi o motivo que pelo qual não tenho te respondido todos os
dias. Falta-me tempo. Quando não estou naquela maldita instituição, estou com
um ou outro novo conhecido (que começam a me irritar), e único tempo que me
sobra tenho que aplicar nos estudos.
Também na última mensagem tive que interromper meu
relato na metade, pois veio em minha casa Mikael (um garoto que conheci há
pouco tempo. Outro dia conto-lhe uma história tão interessante quanto triste
que soube dele), me convidar para sair com dois de seus amigos, e como não
quero que pensem que sou descuidado para com as pessoas, resolvi aceitar o
convite e te enviar o escrito como estava. Preciso contar-lhe o que aconteceu no
mais incrível passeio que tive nesse lugar (e talvez no mais perfeito que já
tive na vida). Bom, por volta das 14:00 do dia 18, o pobre Mikael bateu em
minha casa com dois outros humanos que até então me eram desconhecidos, são
eles, o incrivelmente impecável Dionísio e a personagem que invadiu minha mente
com as forças de um cavaleiro que toma de assalto uma fortaleza inexpugnável.
Não consigo compreender, meu amigo, por qual motivo
minha consciência se prendeu tanto a ela, uma garota que em todos esses anos de
existência, me foi completamente desconhecida, e no entanto, agora é como se
minha alma não suportasse cada microssegundo que passo longe desse ser... é
como se muito de meu tempo me fosse roubado apenas por não estar perto
(fisicamente ou mentalmente) de Jeovanna. O remédio para a doença da privação
dessa sobre-humana vida é a invocação de seu retrato em minha imaginação. Porém, o demônio que devo exorcizar é o fato
de que nem mesmo consigo trazer à memória a figura de seu rosto. Não importa o
quanto tente tudo que me aparece ao espírito, são suas vestes negras e seu
cabelo da cor da abóboda celeste noturna, mas a imagem de seu rosto foge de mim,
não importa o quanto eu a persiga, e esse evento acaba por me deixar tão
desesperado e com a alma em um estado angústia e desordem que sou obrigado a
parar esta campanha por incapacidade emocional de continua-la. O pior é que o
borrão em seu rosto me assombra mesmo tendo parado por um tempo constrangedor
para contempla-la.
Mas voltemos ao relato. Após meus dois quase
eternos minutos parados, olhando para a garota que se mantinha em pé ao lado
esquerdo de Mikael, este me cumprimentou, e virando-se para o homem que estava à
sua esquerda, me apresentou o já mencionado Dionísio. Como é ele? Um jovem alto
de cabelo preto penteado para trás, cujo corte me lembrou um destes rockstars de décadas passadas. Tinha
olhos assustadoramente grandes e igualmente negros, o que mantinha equilíbrio
com seu nariz pontudo que dava ao rapaz um ar de calmo. Apesar disso, seu
sorriso contrastava com seu nariz, dando a ele um aspecto de um homem de
negócios, sujeito malicioso. Esta esquisita batalha entre o “assustador”, o
“calmo” e o “malicioso”, trajava vestes pretas, desde seu casaco, até seu
tênis. Entretanto, seu caráter (como me pareceu pelas primeiras impressões) faz
total oposição à negritude de sua roupagem, pois o garoto se mostrou totalmente
educado no decorrer de nossa conversa. Mais tarde descobri que se tratava de
uma existência de 21 anos e que tinha um grau de parentesco com Mikael (este
grau eu não me recordo agora), e naquele momento gozava de uma longa folga de
seu trabalho, no qual só voltará na segunda metade de maio.
Depois de conhecer Dionísio, foi a vez da saudação
de Jeovanna, o mais doce, angelical e
amável som que já ouvi em toda minha vida convertido nas sílabas de meu nome
antecedidos por um “oi”. Não sei como não desabei ao ouvir essa junção de
palavras, pois àquela altura meu ser já tinha se perdido na imensidão de beleza
que continha aquele ente... Como se não fosse suficiente para destruir meu
equilíbrio, Jeovanna teve a audácia de pronunciar seu discurso com um sorriso gracioso
possuindo seus lábios! Pode alguém esperar que um homem se mantenha firme ao
presenciar tal cena? É claro que não! Fui o mais valente mancebo ao me manter
em pé. É óbvio que minhas emoções não poderiam passar despercebidas, pois elas
gritavam com toda sua força o que se passava em minha cabeça, gritavam tão alto
que pude sentir algo em meus olhos, algo que anunciava a vermelhidão que
acompanha as lágrimas. Tais sinais condenavam-me, diziam para todos que
pudessem me ver naquele momento, que algo me abalara. Ao perceber que todos me
olhavam com um pouco de espanto, retribui meu comprimento (à essa altura,
completamente corado) com um “olá” sem mais lhe dirigir a palavra, pois julguei
que aquela dose de constrangimento era suficiente, pelo menos suficiente por
uma hora.
Feitas as devidas apresentações, movemos nossos pés
por dez quadras, e no caminho, a mim não foi dirigida nenhuma palavra, tampouco
eu, encabulado como estava pelo evento que acontecera, quis verbalizar alguma
coisa. Porém, o silêncio de minhas palavras era inversamente proporcional ao
barulho de meus pensamentos, que não era utilizado para nada, se não para
reconstruir a imagem daquela graciosa mulher em minha cabeça, e de formular
pequenos diálogos e pequenas desculpas para ter o mínimo de conversa com aquela
garota. De tempos em tempos, direcionava o olhar para ela, mas não a conseguia
ver com precisão, pois como Mikael e Dionísio me tampavam a vista, não poderia
a contemplar sem parecer, no mínimo, fortemente interessado. Não demorou muito
para que chegássemos a campo aberto (me espantou encontrar um local verde em
meio a tanto cinza e negro), repleto de grama e com muitas árvores ao redor. A
imagem era linda, Haimrich! Por trás das densas árvores que rodeavam o campo,
erguiam-se majestosas construções, fazendo a mais perfeita combinação entre a
criação da natureza e as obras humanas. Devo admitir que as construções feitas
por mãos prometeicas me causam quase tanta admiração quanto as feitas pelas
mãos do Deus cristão, no entanto, me assusta na mesma equivalência, o modo como
os edifícios levantam-se tão mais altos que as pequenas criaturinhas verdes e
marrons, como que dizendo de cima para elas “Ei! Olhem, nosso criador superou o
vosso!” Ó, meu amigo, o homem acabará por destruir-se se continuar com a busca
pela onipotência.
Andamos pouco mais de 20 metros, e após chegarmos a
um canto do grande plaino, escolhemos cuidadosamente uma árvore para sentarmos
embaixo desta. Como não havia sol naquele dia, o que extraímos daquele presente
divino foi apenas um encosto para nossas costas. Que deleite para meus olhos
foi aquele lugar! Que deleite maior ainda foi ao ver que Jeovanna resolveu
sentar-se ao meu lado! Com que boa vontade ela realizou aqueles movimentos! Oh,
por Deus, que criatura simpática! Sim, sei que estou abusando das exclamações,
mas querias o que, Haimrich? Já esteve perto de uma pessoa que faz tudo ao seu
redor ser tão vivo que quando ela se aproxima tu sentes que quer falar
gritando, pois tua alma grita por não suportar o prazer que experimenta ao
compartilhar o ar com a existência única? Não sabes como é, não podes me
julgar! Uso mil vezes das exclamações! E mil vezes mil se for necessário para
expressar o que senti estando ao lado dela!
Tendo sentado ao meu lado, Jeovanna perguntou-me se
eu estava bem... Oh... Estar bem? É claro que não estava. Como podia estar? Me
encontrava conversando com a pessoa que por algum motivo desconhecido havia
dominado minhas razões, que me fez ter os sintomas de alguém com transtorno de
fobia social, que me fez parecer um bobo... Estar bem? “Muito bem, obrigado por
perguntar” fui forçado a responder. Não ousei dizer que minha vontade era
abraçá-la e imprimir-lhe um beijo naqueles lábios que em pouco menos de meia
hora parecia-me como a imagem do próprio paraíso. Ao passo que ela me respondeu
“Por nada. É que você pareceu tão estranho hoje, por um minuto parece que
apagou”. Que crueldade! É como se um assassino roubasse a vida de sua vítima e
quando esta estivesse quase abandonando a existência, o algoz sussurrasse em
seu ouvido “Está tudo bem? Parece que alguém cravou-lhe cinco vezes uma adaga
contra tua barriga”. E ao contrário da vítima que ainda carrega a esperança de
se ver livre das mãos do patife que a esfaqueou, eu carregava a certeza de
queria estar sempre perto da moça que me fizera sentir aquela sensação tão
estranha. À Jeovanna respondi que estava muito bem, e que só tinha me sentido
mal por alguns segundos, que isso vive acontecendo comigo.
Ah, a mentira... o demônio que espanta a todos, mas
que em alguns momentos pode se tornar seu melhor companheiro. Mas é claro, que
como demônio, você nunca pode confiar nela, pois cedo ou tarde acabará por te
trair, e comigo a traição aconteceu mais cedo que eu esperava. Tendo subido o
olhar para cima na diagonal, de modo que focava sua atenção visual a um galho
que se encontrava há alguns metros acima de nós, ela, com uma firmeza que em
certo aspecto me assustou, disse:
– Não. – E dessa vez dirigiu seu
olhar para a grama que sustentava seu corpo – não acredito que esteja tudo bem.
Pelo menos não esta tudo “normal” contigo.
– E porque pensas isso? Não é comum as pessoas se sentirem mal as vezes?
Eu mesmo me sinto assim o tempo todo. Ontem mesmo foram duas vezes, em uma das
quais quase desabei ao chão. – e deixando um inseto subir com sua graciosidade sobre
minha mão, continuei – Lurdes, minha vizinha, viu o ocorrido, pois ele
aconteceu enquanto eu caminhava pela rua e apressadamente encaminhou-se ao meu
socorro. Ela mesma me confessou ter esses acessos as vezes.
– Oh, certo então. Acessos? – Por Deus Haimrich, que olhar infestado por
compaixão ela me dirigiu! Pensando melhor, não pude distinguir se ela tomou
minhas falsas dores, ou sentiu um profundo desapontamento pela minha resposta. Ela
estaria demonstrando um pouco de interesse por mim? Me diga, o que tu pensas
pela cena que lhe descrevi? É bem provável, pois não sou de todo desajeitado.
Confesso ter meus defeitos, é claro, mas por vezes é possível encontrar algum
encanto nesse complexo de carne e alma chamado Johannes – Pensei que... ah, me
diga o que está achando da nossa cidade?
– Pensou que...? É um lugar um pouco assustador, na verdade. – respondi
sem muito ligar para a segunda frase, pois a única coisa me vinha à mente era a
possibilidade de ter despertado pelo menos sua admiração.
– Assustador? O que há de tão apavorante aqui que não encontra na tua
cidade natal? – Ela havia ignorado totalmente minha primeira pergunta. Isso
poderia significar duas coisas: ela se arrependeu de ter expressado nas
entrelinhas seu encanto por mim, ou se arrependeu de ter feito parecer que
sentia afeição por minha pessoa, pois essa não era sua intenção. Ao meu
espírito pessimista só me ocorreu a última possibilidade.
– Não respondestes minha pergunta. O que pensou há pouco, mas
arrependeu-se de dizer? – Disse eu como um leve tom de repreensão, mas apenas
como um gracejo – É indelicado despertar
o interesse em alguém por algo pronunciado e depois recusar-se a dizer, como
que para criar suspense, tal como fazem os artistas de nosso tempo.
Após eu ter proferido isso, Jeovanna se levantou,
olhou para seu relógio, o qual marcava 14:46 e disse estar “completamente
atrasada para um compromisso”. Tais palavras foram como punhos chocando-se
contra minha felicidade. Ora, não é possível que tenha causado tanto enfado à
ela que preferiu escolher uma mentira qualquer para se livrar de minha
companhia. Oh, amigo, já lhe disse que fatos inventados são demônios, os quais
te traem na primeira oportunidade. Há poucos minutos ele me pareceu um grande
amigo disposto a me tirar de uma situação constrangedora, e alguns momentos
depois, vejo ao lado da que me ajudou a enganar a maldita entidade demoníaca,
como se nossa relação não existisse, como se fosse um mercenário que prestasse
seus serviços a quem pagasse mais.
Passei alguns segundos refletindo sobre nossa quase
duradoura conversa, quando notei que Jeovanna já havia se despedido de Dionísio
e Mikael e fora embora sem nem sequer me demonstrar seu “tchau”. Não sei o que
abaixou mais meu estado de alma: o anuncio de sua partida, ou o silencio de sua
não despedida. Me enfureci com o acontecido e parti dali sem dizer uma palavra
para os dois que ficaram. Se ela tinha o direito de tal grosseria, eu também
teria. E se fosse censurado depois, mandaria todos para o inferno, seja lá por
qual motivo, e não me importaria nem um pouco se não houvesse razão para isso.
Agora me encontro aqui, amigo, olhando para essa
tela e tentando lhe descrever algo mais sobre a entidade quase mitológica que
tive o prazer (e o desprazer) de conhecer neste dia. Meu espírito, no final
deste relato, já se encontra uma mistura agradavelmente agoniante de felicidade
e desespero. Felicidade por ter tido a honra de trocar poucas palavras com a
humana mais admirável que já pousou os leves pés sobre o solo terrestre, e
desespero por ter agido de modo tão inconveniente, para com uma semideusa. Deus
perdoe meus atos, pois sei que ela não o perdoará.
Adeus. Ficarei com as tormentas de sentimentos que
inundam meu ser, e que você tenha mais sorte em seus dias, camarada.
contato@patrickrene.com.br


Vou nem comentar que é pra não estragar o que estou sentindo.
ResponderExcluirPela alma dos poetas...
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