Amor,

Os Diários de Johannes - O Encontro de Jeovanna!

08:38 Equipe Das Letras 2 Comments

Brunus Von Haimrich, trás hoje mais um capítulo dos "Diários de Johannes" em sua coluna "Teoria de Big Heel". Se você perdeu o "Prólogo" e o "Cápitulo 1" clique aqui! Boa leitura! 


 Minha alma, meu amigo, meu mais precioso bem. A ferramenta que Deus me concedeu para contemplar sua criação... e... que criação!
 Por que começo minha carta virtual evocando o nome de Deus e suas criaturas? Porque conheci a mais perfeita delas nesse dia, homem. Apenas um Ser dotado de onipotência poderia dar o sopro de vida a uma escultura de barro tão perfeita quanto Jeovanna. Não posso dizer mais nada sobre esse anjo, pois todo meu intelecto passou a utilizar suas energias apenas com a memória, para poder, pelo menos por alguns instantes, contemplá-la mais uma vez, e, como o “mais uma vez” nunca é o suficiente, torno a explorar minha memória para encontrar outro resquício de imagem da donzela que facilmente tomaria o posto de Afrodite. 
Nem sei como te escrevo, é apenas meu corpo relatando o que viu hoje, pois minha mente se encontra voltada para ela própria, e não percebe o que acontece ao seu redor. Minhas mãos acabará por denunciar minhas aventuras e em poucos minutos você saberá como fui agraciado hoje.
Como prezo a companhia humana, Haimrich! Deus sabe como valorizo este bem, atribuindo-lhe importância acima do que qualquer pessoa julgaria necessário. Para mim não há nada mais prazeroso que aproveitar de uma boa conversa, então olhar o relógio e perceber que muito tempo já se passara desde que começou este divertimento. O quão paradoxal é a vida!  Justamente quando gozamos dos bens da existência, é quando distraímo-nos de tal forma, que tudo ao nosso redor deixa de ser levado em conta e o próprio ato de existir nem é lembrado por nós. Juro que se os movimentos vitais de meu corpo não agissem de modo voluntário, já teria eu deixado esse plano há muito tempo. E como tenho tido destes maravilhosos momentos aqui. Todos que me cercam esforçam-se, da maneira mais pura, para me dar atenção (talvez por eu ser uma novidade, mas isso não me importa). A senhora que mora na casa ao lado já me visitou duas vezes hoje com um “precisa de algo, querido? Qualquer coisa é só me chamar, viu?” nos lábios.
No entanto, como tudo na vida é luz e sombra, devo dizer que por vezes toda esta atenção me enfada, e me sinto pressionado como um corpo travando uma batalha contra uma roupa apertada. Ora, um homem precisa de seu tempo livre para fazer suas coisas, colocar os fantasmas dos pensamentos em dia... aliás esse foi o motivo que pelo qual não tenho te respondido todos os dias. Falta-me tempo. Quando não estou naquela maldita instituição, estou com um ou outro novo conhecido (que começam a me irritar), e único tempo que me sobra tenho que aplicar nos estudos.
Também na última mensagem tive que interromper meu relato na metade, pois veio em minha casa Mikael (um garoto que conheci há pouco tempo. Outro dia conto-lhe uma história tão interessante quanto triste que soube dele), me convidar para sair com dois de seus amigos, e como não quero que pensem que sou descuidado para com as pessoas, resolvi aceitar o convite e te enviar o escrito como estava. Preciso contar-lhe o que aconteceu no mais incrível passeio que tive nesse lugar (e talvez no mais perfeito que já tive na vida). Bom, por volta das 14:00 do dia 18, o pobre Mikael bateu em minha casa com dois outros humanos que até então me eram desconhecidos, são eles, o incrivelmente impecável Dionísio e a personagem que invadiu minha mente com as forças de um cavaleiro que toma de assalto uma fortaleza inexpugnável.
Não consigo compreender, meu amigo, por qual motivo minha consciência se prendeu tanto a ela, uma garota que em todos esses anos de existência, me foi completamente desconhecida, e no entanto, agora é como se minha alma não suportasse cada microssegundo que passo longe desse ser... é como se muito de meu tempo me fosse roubado apenas por não estar perto (fisicamente ou mentalmente) de Jeovanna. O remédio para a doença da privação dessa sobre-humana vida é a invocação de seu retrato em minha imaginação.  Porém, o demônio que devo exorcizar é o fato de que nem mesmo consigo trazer à memória a figura de seu rosto. Não importa o quanto tente tudo que me aparece ao espírito, são suas vestes negras e seu cabelo da cor da abóboda celeste noturna, mas a imagem de seu rosto foge de mim, não importa o quanto eu a persiga, e esse evento acaba por me deixar tão desesperado e com a alma em um estado angústia e desordem que sou obrigado a parar esta campanha por incapacidade emocional de continua-la. O pior é que o borrão em seu rosto me assombra mesmo tendo parado por um tempo constrangedor para contempla-la.
Mas voltemos ao relato. Após meus dois quase eternos minutos parados, olhando para a garota que se mantinha em pé ao lado esquerdo de Mikael, este me cumprimentou, e virando-se para o homem que estava à sua esquerda, me apresentou o já mencionado Dionísio. Como é ele? Um jovem alto de cabelo preto penteado para trás, cujo corte me lembrou um destes rockstars de décadas passadas. Tinha olhos assustadoramente grandes e igualmente negros, o que mantinha equilíbrio com seu nariz pontudo que dava ao rapaz um ar de calmo. Apesar disso, seu sorriso contrastava com seu nariz, dando a ele um aspecto de um homem de negócios, sujeito malicioso. Esta esquisita batalha entre o “assustador”, o “calmo” e o “malicioso”, trajava vestes pretas, desde seu casaco, até seu tênis. Entretanto, seu caráter (como me pareceu pelas primeiras impressões) faz total oposição à negritude de sua roupagem, pois o garoto se mostrou totalmente educado no decorrer de nossa conversa. Mais tarde descobri que se tratava de uma existência de 21 anos e que tinha um grau de parentesco com Mikael (este grau eu não me recordo agora), e naquele momento gozava de uma longa folga de seu trabalho, no qual só voltará na segunda metade de maio.
Depois de conhecer Dionísio, foi a vez da saudação de Jeovanna,  o mais doce, angelical e amável som que já ouvi em toda minha vida convertido nas sílabas de meu nome antecedidos por um “oi”. Não sei como não desabei ao ouvir essa junção de palavras, pois àquela altura meu ser já tinha se perdido na imensidão de beleza que continha aquele ente... Como se não fosse suficiente para destruir meu equilíbrio, Jeovanna teve a audácia de pronunciar seu discurso com um sorriso gracioso possuindo seus lábios! Pode alguém esperar que um homem se mantenha firme ao presenciar tal cena? É claro que não! Fui o mais valente mancebo ao me manter em pé. É óbvio que minhas emoções não poderiam passar despercebidas, pois elas gritavam com toda sua força o que se passava em minha cabeça, gritavam tão alto que pude sentir algo em meus olhos, algo que anunciava a vermelhidão que acompanha as lágrimas. Tais sinais condenavam-me, diziam para todos que pudessem me ver naquele momento, que algo me abalara. Ao perceber que todos me olhavam com um pouco de espanto, retribui meu comprimento (à essa altura, completamente corado) com um “olá” sem mais lhe dirigir a palavra, pois julguei que aquela dose de constrangimento era suficiente, pelo menos suficiente por uma hora.
Feitas as devidas apresentações, movemos nossos pés por dez quadras, e no caminho, a mim não foi dirigida nenhuma palavra, tampouco eu, encabulado como estava pelo evento que acontecera, quis verbalizar alguma coisa. Porém, o silêncio de minhas palavras era inversamente proporcional ao barulho de meus pensamentos, que não era utilizado para nada, se não para reconstruir a imagem daquela graciosa mulher em minha cabeça, e de formular pequenos diálogos e pequenas desculpas para ter o mínimo de conversa com aquela garota. De tempos em tempos, direcionava o olhar para ela, mas não a conseguia ver com precisão, pois como Mikael e Dionísio me tampavam a vista, não poderia a contemplar sem parecer, no mínimo, fortemente interessado. Não demorou muito para que chegássemos a campo aberto (me espantou encontrar um local verde em meio a tanto cinza e negro), repleto de grama e com muitas árvores ao redor. A imagem era linda, Haimrich! Por trás das densas árvores que rodeavam o campo, erguiam-se majestosas construções, fazendo a mais perfeita combinação entre a criação da natureza e as obras humanas. Devo admitir que as construções feitas por mãos prometeicas me causam quase tanta admiração quanto as feitas pelas mãos do Deus cristão, no entanto, me assusta na mesma equivalência, o modo como os edifícios levantam-se tão mais altos que as pequenas criaturinhas verdes e marrons, como que dizendo de cima para elas “Ei! Olhem, nosso criador superou o vosso!” Ó, meu amigo, o homem acabará por destruir-se se continuar com a busca pela onipotência.
Andamos pouco mais de 20 metros, e após chegarmos a um canto do grande plaino, escolhemos cuidadosamente uma árvore para sentarmos embaixo desta. Como não havia sol naquele dia, o que extraímos daquele presente divino foi apenas um encosto para nossas costas. Que deleite para meus olhos foi aquele lugar! Que deleite maior ainda foi ao ver que Jeovanna resolveu sentar-se ao meu lado! Com que boa vontade ela realizou aqueles movimentos! Oh, por Deus, que criatura simpática! Sim, sei que estou abusando das exclamações, mas querias o que, Haimrich? Já esteve perto de uma pessoa que faz tudo ao seu redor ser tão vivo que quando ela se aproxima tu sentes que quer falar gritando, pois tua alma grita por não suportar o prazer que experimenta ao compartilhar o ar com a existência única? Não sabes como é, não podes me julgar! Uso mil vezes das exclamações! E mil vezes mil se for necessário para expressar o que senti estando ao lado dela!
Tendo sentado ao meu lado, Jeovanna perguntou-me se eu estava bem... Oh... Estar bem? É claro que não estava. Como podia estar? Me encontrava conversando com a pessoa que por algum motivo desconhecido havia dominado minhas razões, que me fez ter os sintomas de alguém com transtorno de fobia social, que me fez parecer um bobo... Estar bem? “Muito bem, obrigado por perguntar” fui forçado a responder. Não ousei dizer que minha vontade era abraçá-la e imprimir-lhe um beijo naqueles lábios que em pouco menos de meia hora parecia-me como a imagem do próprio paraíso. Ao passo que ela me respondeu “Por nada. É que você pareceu tão estranho hoje, por um minuto parece que apagou”. Que crueldade! É como se um assassino roubasse a vida de sua vítima e quando esta estivesse quase abandonando a existência, o algoz sussurrasse em seu ouvido “Está tudo bem? Parece que alguém cravou-lhe cinco vezes uma adaga contra tua barriga”. E ao contrário da vítima que ainda carrega a esperança de se ver livre das mãos do patife que a esfaqueou, eu carregava a certeza de queria estar sempre perto da moça que me fizera sentir aquela sensação tão estranha. À Jeovanna respondi que estava muito bem, e que só tinha me sentido mal por alguns segundos, que isso vive acontecendo comigo.
Ah, a mentira... o demônio que espanta a todos, mas que em alguns momentos pode se tornar seu melhor companheiro. Mas é claro, que como demônio, você nunca pode confiar nela, pois cedo ou tarde acabará por te trair, e comigo a traição aconteceu mais cedo que eu esperava. Tendo subido o olhar para cima na diagonal, de modo que focava sua atenção visual a um galho que se encontrava há alguns metros acima de nós, ela, com uma firmeza que em certo aspecto me assustou, disse:
 – Não. – E dessa vez dirigiu seu olhar para a grama que sustentava seu corpo – não acredito que esteja tudo bem. Pelo menos não esta tudo “normal” contigo.
– E porque pensas isso? Não é comum as pessoas se sentirem mal as vezes? Eu mesmo me sinto assim o tempo todo. Ontem mesmo foram duas vezes, em uma das quais quase desabei ao chão. – e deixando um inseto subir com sua graciosidade sobre minha mão, continuei – Lurdes, minha vizinha, viu o ocorrido, pois ele aconteceu enquanto eu caminhava pela rua e apressadamente encaminhou-se ao meu socorro. Ela mesma me confessou ter esses acessos as vezes.
– Oh, certo então. Acessos? – Por Deus Haimrich, que olhar infestado por compaixão ela me dirigiu! Pensando melhor, não pude distinguir se ela tomou minhas falsas dores, ou sentiu um profundo desapontamento pela minha resposta. Ela estaria demonstrando um pouco de interesse por mim? Me diga, o que tu pensas pela cena que lhe descrevi? É bem provável, pois não sou de todo desajeitado. Confesso ter meus defeitos, é claro, mas por vezes é possível encontrar algum encanto nesse complexo de carne e alma chamado Johannes – Pensei que... ah, me diga o que está achando da nossa cidade?
– Pensou que...? É um lugar um pouco assustador, na verdade. – respondi sem muito ligar para a segunda frase, pois a única coisa me vinha à mente era a possibilidade de ter despertado pelo menos sua admiração.
– Assustador? O que há de tão apavorante aqui que não encontra na tua cidade natal? – Ela havia ignorado totalmente minha primeira pergunta. Isso poderia significar duas coisas: ela se arrependeu de ter expressado nas entrelinhas seu encanto por mim, ou se arrependeu de ter feito parecer que sentia afeição por minha pessoa, pois essa não era sua intenção. Ao meu espírito pessimista só me ocorreu a última possibilidade.
– Não respondestes minha pergunta. O que pensou há pouco, mas arrependeu-se de dizer? – Disse eu como um leve tom de repreensão, mas apenas como um gracejo –  É indelicado despertar o interesse em alguém por algo pronunciado e depois recusar-se a dizer, como que para criar suspense, tal como fazem os artistas de nosso tempo. 
Após eu ter proferido isso, Jeovanna se levantou, olhou para seu relógio, o qual marcava 14:46 e disse estar “completamente atrasada para um compromisso”. Tais palavras foram como punhos chocando-se contra minha felicidade. Ora, não é possível que tenha causado tanto enfado à ela que preferiu escolher uma mentira qualquer para se livrar de minha companhia. Oh, amigo, já lhe disse que fatos inventados são demônios, os quais te traem na primeira oportunidade. Há poucos minutos ele me pareceu um grande amigo disposto a me tirar de uma situação constrangedora, e alguns momentos depois, vejo ao lado da que me ajudou a enganar a maldita entidade demoníaca, como se nossa relação não existisse, como se fosse um mercenário que prestasse seus serviços a quem pagasse mais.
Passei alguns segundos refletindo sobre nossa quase duradoura conversa, quando notei que Jeovanna já havia se despedido de Dionísio e Mikael e fora embora sem nem sequer me demonstrar seu “tchau”. Não sei o que abaixou mais meu estado de alma: o anuncio de sua partida, ou o silencio de sua não despedida. Me enfureci com o acontecido e parti dali sem dizer uma palavra para os dois que ficaram. Se ela tinha o direito de tal grosseria, eu também teria. E se fosse censurado depois, mandaria todos para o inferno, seja lá por qual motivo, e não me importaria nem um pouco se não houvesse razão para isso.
Agora me encontro aqui, amigo, olhando para essa tela e tentando lhe descrever algo mais sobre a entidade quase mitológica que tive o prazer (e o desprazer) de conhecer neste dia. Meu espírito, no final deste relato, já se encontra uma mistura agradavelmente agoniante de felicidade e desespero. Felicidade por ter tido a honra de trocar poucas palavras com a humana mais admirável que já pousou os leves pés sobre o solo terrestre, e desespero por ter agido de modo tão inconveniente, para com uma semideusa. Deus perdoe meus atos, pois sei que ela não o perdoará.
Adeus. Ficarei com as tormentas de sentimentos que inundam meu ser, e que você tenha mais sorte em seus dias, camarada. 

contato@patrickrene.com.br 

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